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Tijolos e Educação

O professor Ricardo Carvalho em seu artigo “Arte e Gestão” faz a seguinte reflexão;

“Para o historiador inglês Herbert Read (1893- 1968), o ato de educar deveria ser concebido como a preparação de um artista. “Artista é o indivíduo que desenvolve ideias, sensibilidades, habilidades e imaginação para criar trabalhos bem proporcionados, habilidosamente executados, imaginativos, independentemente do ambiente em que trabalha. Maior título que se pode dar a alguém é o de ‘ser artista’ naquilo que faz, independentemente de sua profissão”, – dizia. Nessa perspectiva, a arte poderia colaborar para a construção de abordagens mais generosas, humanas e criativas da prática educacional. Mais recentemente, Eisner (2002) ressaltou que, como a arte não tem o monopólio do artístico, o maior título que se pode dar a alguém é o de ser “artista” naquilo que faz, independente da profissão.”

A personificação das Sete Artes Liberais (Trivium et Quadrivium) foi um tema iconográfico muito comum nas artes medieval e moderna. Sendo a música uma delas. A palavra música, do grego mousikê, que quer dizer “arte das musas”, sendo considera uma das 7 artes liberais. O estudo dos princípios musicais (educação musical), tais como harmonia, não podendo ser confundida com a música instrumental aplicada (uma das sete belas-artes). O objetivo destas artes ditas “da quantidade” era prover meios e métodos para o estudo da matéria, sujeitos a aprimoramento no âmbito das disciplinas ditas superiores.

Recomendo a leitura ao som da música Another Brick in the Wall ,canção de Pink Floyd.

Another Brick in the Wall” é o título de um conjunto de três canções baseadas no mesmo tema, parte da rock ópera do Pink Floyd ( ópera em italiano: significa trabalho, em latim, plural de “opus”, obra) é um gênero artístico teatral que consiste em um drama encenado acompanhada de música, ou seja, composição dramática em que se combinam música instrumental e canto, com presença ou não de diálogo falado. ) – , “The Wall”, de 1979, subtituladas “Parte I” (Memórias), “Parte II” (Educação) e “Parte III” (Drogas), respectivamente, as quais todas foram escritas pelo baixista e principal compositor do Pink Floyd, Roger Waters. As canções se tornaram algumas das mais famosas da banda.Se tornou polêmica justamente por criticar uma educação reprodutora, que não visa transformar o aluno em um cidadão pensante e questionador, mas sim em apenas mais um na sociedade, mais um tijolo no muro. Surge para criticar fortemente a educação modeladora, mostrando o poder de imposição de entidades políticas, sejam de esquerda ou direita na educação. Resultando em uma formação com lacunas gritantes, onde se compromete o segundo conceito do parágrafo anterior, o pensamento crítico.

Explico, o pensamento crítico só é possível ao se analisar diversas abordagens sobre determinado assunto, sendo de mais conservadora ou liberal a visão, a compreensão critica só é alcançada ao analisar os apostos, na conta-corrente do que acontece atualmente onde redes sociais e seus algoritmos selecionam oque vemos em concordância com nossas opiniões, matando assim a visão critica.

O videoclipe, resumidamente, trata de uma situação na qual um professor repreende e ridiculariza um aluno, na sala de aula, ao perceber que ele escreve poemas, mostrando a forte intolerância sobre as diferenças. O menino não reage à atitude do professor, mas se imagina destruindo a escola junto com seus colegas. Porém, a escola imaginada não é como a sua escola de fato e sim uma espécie de galpão, dividido em seções como uma fábrica de montagem, onde, anteriormente, os alunos aparecem em fila, usando máscaras sem face, como se fossem peças produzidas numa fábrica, marchando em direção a imensos moedores de carne.

No videoclipe “Após ter sido insultado pelo professor, Pink sonha que as crianças da escola começam a protestar contra seus professores abusivos.

Seguindo “The Happiest Days of Our Lives”, Pink começa a devanear durante sua aula. Ele imagina vários estudantes marchando juntos na batida da música, seguindo em um caminho até caírem em um triturador de carnes gigante para emergirem como clones desprovidos de distinção individual. Começando com o solo de guitarra de Gilmour, as crianças destroem o prédio da escola usando martelos (prenunciando a sequencia animada neo-fascista semelhante aos nazistas com seus martelos marchantes) e alavancas, criando uma fogueira, tirando à força seu professor da escola que queima, chutando e gritando. A canção termina com Pink esfregando sua mão, a qual o professor tinha estapeado com uma régua na música anterior.

Ironicamente, hoje temos relatos de alunos que fazem o descrito na canção com seus professores. Isso mostra como de certa forma a violência faz parte da formação do homem se visto do ponto de vista antropológico e biológico, e inversamente proporcional a seu nível de cultura e civilidade. Afinal, não pedimos por favor para o boi entrar no frigorífico, a fim de virar um belo bife em seu prato no restaurante. Importante atentar que, disse violência do ponto de vista da evolução do homem e não a crueldade de agressão contra o próximo ou irascibilidade gratuita.

Isso nos leva a uma seguinte análise, não damos valor ao que temos, os críticos de plantão do conservadorismo, taxam tudo como sendo início de censura, não dão a mínima para a liberdade educacional que desfrutam. Quantos alunos hoje conhecem alguma poesia, ou sabem interpretar um poema ? Ou seja, tomamos rumo para um quadro social-pedagógico em que tudo se pode, mas pouco se sabe, qual a vantagem disso, quando a sabedoria esta na ação e não no saber pelo saber ? Tudo posso mas nada sei praticar, deturpando o evangelista Paulo das escrituras.

Filme, “Sociedade dos Poetas Mortos” com Robin Willians

Filme, “Sociedade dos Poetas Mortos” com Robin Willians

Minha antiga professora e Coodenadora do Curso de Administração da UNIPAR, e hoje colega de trabalho em outra instituição, Profa. Niceia Selete, fez uma interessante análise:

“Muitas mentes fascinantes, sendo mal utilizadas por seus donos e, em muitos casos, talvez a maioria, porque ninguém os avisou em casa e nos níveis escolares anteriores que serão sempre aprendizes, que o mundo é muito maior que o que seus olhos são capazes de enxergar no horizonte e, principalmente, como dizia meu pai, um “ponto” fala mais do que a sua imagem representa tecnicamente, porque “para bom entendedor, ponto é letra. E assim temos não um analfabetismo funcional mas à arrogância analfabeta disfuncional.”

Assim temos, alunos de ensino superior hoje que sabem diferenciar e explicar com propriedade as diferenças características de uma cerveja pilsen e de uma tipo IPA, ou os aromas de seus narguilés em tabacarias, fruto das tendências do momento, mas ignoram conceitos como a epistemologia em que as formas de conhecimento diferem de saber como andar de bicicleta ou como tocar piano, e também diferem de conhecer uma determinada pessoa ou estar “familiarizado” com ela. Alguns filósofos consideram que há uma diferença considerável e importante entre “saber que”, “saber como” e “familiaridade” e que o principal interesse da filosofia recai sobre a primeira forma de saber.

O escritor David Foster Wallace, em sua obra “ Graça Infinita”, descreve uma sociedade futurista, vale ressaltar que ele faleceu em 2011, em que as pessoas eram viciadas em uma droga que as tirava da realidade, o entretenimento. Uma literatura moderna que se equivale a um Dom Quixote contemporâneo onde os moinhos de vento não são dragões, mas a própria industria do entretenimento que inebria nossas mentes e nos afasta do conhecimento. Na mesma linha de raciocínio o filósofo brasileiro, Luis Felipe Pondé, afirma em uma de suas preleções disponível nas redes, que desconfia seriamente que o homem esta num processo de involução com luxo, onde cada vez mais se deixam de lados valores, princípios e conhecimento, com a variável crescente de tecnologia, conforto e luxo. Uma pesquisa realizada em 2016 apurou que apenas 2,6% das casas brasileiras não possuem televisão, quantas dessas possuem uma biblioteca ?

A música nos faz pensar, o quanto um bom profissional da educação pode transformar a vida de um aluno e como é importante buscar ver as coisas de prismas diferentes, não aceitar padrões; repensá-los. Tentar perceber no mundo os padrões existentes e identificar quais precisam ser quebrados para que as mudanças gerem ganhos sociais ou mesmo pessoais. Como o protagonista do videoclipe, hoje as crianças e os jovens, muitas vezes são conduzidos por forças que não conhecem na sociedade e acabam se tornando “carne moída”, moldada para seguir padrões e obedecer a normas, muitas delas injustas. Além da polêmica, Another Brick in the wall traz consigo a bandeira da mudança, da educação libertadora, capaz de mudar não só a escola, mas o mundo, pois se alguma mudança positiva de padrões sociais for possível ela certamente se iniciará através da educação crítica de qualidade.

O trecho All in all it was all just bricks in the wall. All in all you were all just bricks in the wall. Tudo era apenas um tijolo no muro ..”Todos são somente tijolos na parede”.

Porém numa análise crítica, em que se avalia todos lados, temos que considerar que tijolos de informações podem ser utilizados para construir escadas rumo ao conhecimento, ou sustentar uma parede de conceitos. Ainda dentro de uma analogia você, enquanto tijolo, soma ao todo servindo para sustentar algo, seja um conceito abstrato ou oque melhor lhe convir em sua reflexão. Quando você repensar seu papel, de deixar de ser uniforme e compor o todo, tem de haver o cuidado para que o seu diferencial seja relevante para a obra, em uma empresa, no seu ensino, ou organização que pertence ,a fim de que não se torne dispensável ou um rebelde sem causa. Como ocorreu com o próprio autor da música em sua ultima turnê pelo Brasil.

Nos tempos atuais, sabemos que tem de haver uma posição híbrida de uma universidade quanto a atuação participativa do professor . O educador deve assegurar ao educando uma formação crítica, capaz de levá-lo a refletir sobre temáticas cotidianas e interferir positivamente em seu meio e, sobretudo, em sua vida para transformá-la. Alguns podem pensar que isso seria inviável, visto que são ideias contrárias, mas advirto que isso se deve a falta de conhecimento sobre as filosofias politicas. Ser liberal vai além de criticar tradições, e conservador muito mais que pregar inércia em avanços sociais. Imagem se metade dos falastrões que se denominam embaixadores do liberalismo soubessem que no séc 17, nos Estados Unidos onde os partidos são bem delineados ideologicamente, eram os democratas que lutavam contra a abolição da escravatura, e os Republicanos conservadores que almejavam a libertação dos escravos.

Em uma definição de Roger Scruton: “O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade: a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas. Isso é verdade, sobretudo, em relação às boas coisas que nos chegam como bens coletivos: paz, liberdade, lei, civilidade, espírito público, a segurança da propriedade e da vida familiar, tudo o que depende da cooperação com os demais, visto não termos meios de obtê-las isoladamente. Em relação a tais coisas, o trabalho de destruição é rápido, fácil e recreativo; o labor da criação é lento, árduo e maçante. Esta é uma das lições do século XX. Também é uma razão pela qual os conservadores sofrem desvantagem quando se trata da opinião pública.

A instituição de ensino que preza por sua qualidade está ciente que tem que assumir posições que envolvem o conservadorismo (onde se torna guardiã da cultura social existente) e o liberalismo (buscando transformação e emancipação). As nações que se desenvolveram com êxito, trabalham com ambas forças de forma produtiva, equilibrada de modo a obter o avanço da sociedade e não a vitória de uma ideologia sobre outra.

Atentem que no parágrafo anterior, dissemos atuação participativa, isso envolve uma postura ativa, que vai de consonância com os métodos ativos de ensino. O antigo modelo de ensino porém não deve ser descartado sem critério, afinal independente do design moderno que a obra tome forma, ela ainda obedecerá leis da física onde a engenharia se sustenta pelos cálculos exatos, onde um erro compromete o todo.

O ensino, se equipara a um processo de produção como aprendemos nos cursos das áreas empresariais, tendo-se um input (entrada participativa ) do estudante, do professor e da instituição de ensino, e o output (saída) é o conhecimento. A crítica da música não vai contra o processo em si, mas contra um processo em que as entradas e participações não eram equilibradas. Atentem que, se um dos componentes do processo é falho, o sistema do conhecimento é comprometido, no caso quando um aluno diz que paga pelo ensino como por vezes escutamos em instituições privadas, ignora-se o fato que realmente se paga mas não por um produto acabado, mas para poder participar da construção de um sistema orgânico que nunca deve para de se renovar, que é o conhecimento.

Frase de David Foster Wallace

Volto a Pondé, que identifica nossa era como a do ressentimento e um vitimismo exacerbado. Onde a meritocracia chega a ser uma ofensa para muitos, com terceirização de responsabilidades e justificativas que orbitam a tudo, menos a si próprio. O livro Age of Anger, do indiano Pankaj Mishra avalia como o ressentimento tem crescido ao longo dos séculos e se infiltrado silenciosamente nas manifestações culturais, onde minorias chegam a ditar regras para maioria. E que quando se elaboram leis que visam acabar com problemas de sofrimento social, na verdade se camufla uma tentativa contemporâneo de se isentar de responsabilidade criando-se outros problemas como por exemplo três gerações sustentados pelo estado ou situações semelhantes e a situação inicial não se soluciona. Se dá o peixe, mantém-se a fome e não se ensina a pescar. A solução paliativa se tornou padrão.

Assim, passamos do refrão a música, mundialmente conhecido, e atentamos a um detalhe pouco observado na letra:

Daddy what else did you leave for me? Daddy, what’d’ja leave behind for me?!?

Papai, o que mais você deixou para mim? Papai, o que você deixou para mim?

O quê estamos deixando para as gerações seguintes ? Um liberdade vazia ? Direitos infinitos e conforto para serem usados como ? Lembrem que toda evolução necessita de batalhas, seja uma borboleta ao sair do casulo, ao corpo humano e suas transformações na puberdade até a empresa que planeja crescer. Certa vez, em uma leitura cujo o relapso impede de recordar seu autor, dizia que a educação é um processo traumático, a boa leitura é aquela que lhe causa desconforto e nos tira da zona de conforto, o escritor Carlos Castaneda, descreve uma tradição xamânica , o ponto acomodador. Existe sempre um evento em nossas vidas que é responsável pelo fato de termos parado de progredir. Um trauma, uma derrota especialmente amarga, uma desilusão amorosa, termina fazendo com que nos acovardemos, e não sigamos adiante. O xamã, no processo de esquecimento de sua história pessoal, precisa primeiro livrar-se deste “ponto acomodador”. Para os feiticeiros mexicanos (e, curiosamente, também para algumas correntes budistas) a morte entra pela região próxima ao umbigo. Neste momento, o “ovo de luz” se desfaz, e os filamentos que estavam ali concentrados se misturam com a energia do universo, até se reagruparem de novo sob uma forma diferente.

Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. “Hermann Hesse

Fonte: http://peregrino.blog.br/2019/01/14/tijolos-e-educacao/

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