ECLESIASTES

Irmão Walter Celso de Lima
ARLS Alvorada da Sabedoria, Florianópolis
membro da Academia Catarinense Maçônica de Letras
Faz-se abaixo uma pequena análise de parte do livro Eclesiastes, do ponto de vista maçônico, vale dizer, análise não-religiosa, adogmática e bastante racional. Eclesiastes é uma dos livros sapienciais, hagiógrafo, supostamente escrito pelo Rei Salomão em torno de 950 a.E.V.. Eclesiastes designa aquele que fala em assembleia em grego ekklesia (εκκλησία), em hebraico Kohelet ( ֹ ה ה תֶ לֶ ), o pregador. Trata-se de um livro da
sabedoria hebraica, um livro poético. Linguistas modernos acreditam que o livro foi escrito por 4 pessoas, no mínimo, e escrito após o exílio na Babilônia (em torno de 500 a.E.V.). O importante é seu conteúdo, que diz do lugar do Homem no universo, portanto um livro sobre cosmologia bíblica, isto é, sobre a origem e a evolução do universo segundo a Bíblia.
Abaixo alguns versículos iniciais do Eclesiastes, cap. 1: 2-11 e 14:
“2. Vaidades das vaidades, diz Eclesiastes, vaidades das vaidades. Tudo é vaidade.
3. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se cansa debaixo do sol?
4. Uma geração passa, outra geração vem; mas o mundo continua sempre o mesmo.
5. O sol se levanta, o sol se põe; e volta ao seu lugar para começar tudo outra vez.
6. O vento sopra em direção ao sul, sopra em direção ao norte, dá voltas e mais voltas e acaba no mesmo lugar.
7. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não se transborda. A água volta para onde nascem os rios, e tudo começa outra vez.
8. Todas as coisas levam o homem ao cansaço, um cansaço tão grande que nem se pode contar. Nossos olhos não se cansam de ver, nem os ouvidos de ouvir.
9. O que foi é o que será; o que aconteceu é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol.
10. Será que existe alguma coisa de que se possa dizer: “Veja, isso é novo.” Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos.
11. Ninguém lembra do que aconteceu no passado; quem vier depois das coisas que vão acontecer no futuro também não vai lembrar delas.”
…………
“14. Eu tenho visto tudo o que se faz debaixo do sol e digo: tudo é vaidade, tudo é ilusão. É tudo como correr atrás do vento.”

reisalomao
Fig. 1 – Rei Salomão. Ilustração de Dore
no livro Provérbios, 1866.

Ao repetir que tudo o que existe debaixo do sol, portanto do mundo criado, é vaidade, nada mais que vaidade, é ilusão, é pó, é vento, Salomão lembra que tudo é efêmero, é passageiro como o vento, é temporário, é transitório. Vaidade em hebraico é הֲבָלִים que pode ser traduzido também como “fugaz”, “ilusão”, “baboseira”. Vanitas em latim é vaidade e que pode ser traduzido também como “vazio”. Portanto tudo debaixo do sol é fugaz, ilusão, baboseira e vazio. Efêmero.
A consciência da efemeridade não é religiosa. Efemeridade do mundo acompanha todos, mesmo os não crentes. Tal consciência permite entender o lugar do homem no cosmos – lugar humilhante para aqueles que acreditam que deveria existir outro lugar nos céus. O lugar do homem no cosmos é o mesmo lugar do pó, do vazio, do vento, da vaidade. Isso afirmou Salomão.
A idolatria leva pensar que ao se fazer promessas aos ídolos, quaisquer que eles sejam, estes ídolos tornam o homem mais poderoso do que é. O principal ídolo do mundo atual é o dinheiro, a riqueza, o consumo material o atual bezerro de ouro citado na Bíblia (Êxodo 32: 1-6).
A fraqueza do homem dificulta a consciência da sua efemeridade por causa do sofrimento evidente que essa fraqueza causa ao homem. O cristianismo, quando separado de sua origem hebraica, coloca Jesus numa relação de retribuição, a teologia da retribuição. Com um salto se transforma em teologia da prosperidade dos neopentecostais e de algumas denominações evangélicas. Isto faz de Cristo mais um ídolo idolatra. A teologia da prosperidade é o atual bezerro de ouro. A crítica da idolatria faz encarar o desespero do vazio, do fugaz, da vaidade.
Obviamente, não se afirma que todos os cristãos são idólatras. Mas a idolatria habita o homem, especialmente a do dinheiro. E o quanto da vaidade e da fugacidade existe na vã tentativa de encontrar ídolos enganosos. Trata-se de uma muleta para a vida. E isto já foi previsto por Salomão há cerca de 3.000 anos atrás: “Vaidade das vaidades, Tudo é vaidade. Vazio dos vazios. Tudo é vazio. Tudo é fugaz.”

Considerações finais:
Existe uma estreita relação sobre a efemeridade relatada em Eclesiastes e a Maçonaria. A Maçonaria pugna pela prevalência do espírito sobre a matéria. Como não se está escrevendo sobre religião ou crenças, não importa como se define “espírito”. Pode-se definir “espírito” religiosamente, e isto é um problema de foro íntimo. Pode-se definir “espírito” como tudo aquilo que não é matéria. Por exemplo: inteligência, mente, raciocínio. E matéria, figurativamente, é o “bezerro de ouro” (Êxodo 32: 22): dinheiro, toda matéria que se pode comprar, consumismo, etc. a grande idolatria do mundo moderno. Portanto a Maçonaria pugna pela prevalência do espírito, da inteligência, do raciocínio sobre a matéria, o dinheiro, a riqueza, a teologia da prosperidade. Excluindo este esforço, este combate, de pugnar pela prevalência do espírito sobre a matéria, tudo é vaidade, nada mais que vaidade, tudo é vazio, tudo e fugaz. Como previu o Rei Salomão.
Referências Bibliográficas:
– Arens, E. “A Bíblia sem Mitos.” 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2007.
– Armstrong, K. “A Bíblia.” (Uma Biografia). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
– Bíblia. Nova tradução na linguagem de hoje. Vol. III. Barcelona: ed. Folio, 2008.
– Bíblia de Jerusalém. 9ª ed. São Paulo: ed. Paulinas, 1985.
– Bíblia Sagrada. 31ª ed. São Paulo: Editora Ave Maria, 1981.
– Botton, A. “Religião para Ateus.” Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.
– Ehrman, B.D. “Quem Escreveu a Bíblia?” Rio de Janeiro: Agir, 2013.
– Hebrew – English Bible. According to the Masoretic Text. 1917 Edition. Mechon Mamre
version, 2005.
http://www.mechon-mamre.org/p/pt/pt0.htm
Acessado em 6.out.2015.
– Pondé, L.F. “Os Dez Mandamentos (mais um).” São Paulo: Três Estrelas, 2015.
– Savater, F. “Os Dez Mandamentos para o Século XXI,” Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

 

Fonte: JB News

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