“Antigos e Modernos”. Deus e religião em suas constituições

A intenção deste texto, é demonstrar e comparar um ponto crítico nas constituições dos Antigos, dos Modernos e como este ficou após a união de 1813. O ponto crítico aqui observado é sobre Deus e religião.

Esta comparação tem apenas o intuito de visualizarmos que o “divino”, sempre esteve presente nos regulamentos, desde o início da formatação da maçonaria especulativa como conhecemos hoje, apenas com uma visão diferente em cada um deles.

Abaixo, abordaremos primeiro os “modernos”, nas edições das Constituições de 1723 e 1738. Em seguida, a constituição dos “antigos”, chamada de Ahiman Rezon, e, finalmente, a mesma posição na atual Constituição da Grande Loja Unida da Inglaterra.

O título completo da edição de 1723 é: “As Constituições dos Maçons Livres, contendo a História, Cargos, Regulamentos, etc, da Mais Antiga e Respeitável Fraternidade, para uso das Lojas”.

Em 1738, a Grande Loja (Modernos) muda seu nome de Grande Loja de Londres e Westminster para Grande Loja da Inglaterra, e publicou uma nova versão de suas constituições, novamente elaboradas por James Anderson.

O título da segunda edição, revisada em 1738, foi: “Novo Livro das Constituições da Antiga e Honrosa Fraternidade de Maçons Livres e Aceitos, contendo a História, Cargos, Regulamentos, etc. recolhidas e classificadas por ordem da Grande Loja, desde seus antigos registros, tradições fiéis e livros de loja, para uso das Lojas”.

A edição de 1723 das Constituições, foi editada e reeditada por Benjamin Franklin na Filadélfia e nas colônias americanas, em 1734, tornando-se o primeiro livro maçônico impresso nos EUA.

As Constituições de 1723 (Modernos)

“Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a obedecer à Lei Moral; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso. Muito embora, em tempos antigos, os Maçons fossem obrigados em cada país, a adotar a religião daquele país ou nação, qualquer que ela fosse, mas agora é considerado mais conveniente somente obrigá-los a adotar aquela religião com a qual todos os homens concordam, guardando suas opiniões particulares para si próprio, isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; por isso a Maçonaria se torna um centro da união e um meio de conciliar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância.”

As Constituições de 1738 (Modernos)

A seção sobre religião na versão de 1738, se refere as “Sete Leis de Noé”, uma lista de sete deveres morais que, de acordo com o Talmud, foram dadas por Deus a Noé como um conjunto de leis para toda a humanidade.

“Um Maçom é obrigado, por dever de ofício, a observar a lei moral como um verdadeiro Noaquita; e se ele compreende corretamente a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso, nem agirá contra a consciência. Nos tempos antigos, os maçons cristãos foram obrigados a cumprir os costumes de cada país cristão por onde eles viajavam ou trabalhavam; sendo encontrado em todas as nações, até mesmo naquelas de diferentes religiões. Em geral, eles são obrigados a aderir a religião em que todos os homens concordam (deixando cada irmão com suas próprias opiniões particulares); isto é, serem homens bons e leais, ou homens de honra e honestidade, qualquer que seja a denominação ou convicção que os possam distinguir; pois todos concordam com os três grandes artigos de Noé, o suficiente para preservar a união da loja. Assim, a Maçonaria é o Centro da União, e um modo feliz de conciliar pessoas que de outra forma permaneceriam em perpétua distância. ”

As Constituições dos Antigos (1754)

Seu autor, Laurence Dermott, foi Secretário da Grande Loja dos Antigos de 1752 a 1771. O nome completo da primeira edição foi Ahiman Rezon, ou “Uma ajuda a um irmão”, mostrando a Excelência do Segredo, a primeira causa ou razão para a instituição da Maçonaria, os princípios da arte, e os benefícios da estrita observância da mesma.

A segunda edição foi publicada em 1764 e em edições posteriores em 1778, 1787, 1800, 1801, 1807 e 1813. A segunda edição foi reimpressa nos EUA em 1855 por Leon Hyneman.

Dermott se baseou nas Constituições da Grande Loja da Irlanda, que tinha sido publicada três anos antes, em 1751:

No tópico sobre Deus e Religião:

“Um Maçom é obrigado, por dever de ofício (mandato), a acreditar firmemente no verdadeiro culto do Deus eterno, bem como em todos os registros sagrados que os Dignitários e Pais da Igreja, elaboraram e publicaram para o uso de todos os homens bons: então, aquele que não compreende corretamente a arte, pode seguir os caminhos irreligiosos do infeliz libertino, ou ser induzido a seguir os arrogantes adeptos do ateísmo ou do deísmo; ou aqueles que são manchados com os erros grosseiros da Superstição cega, desde que, em todos os momentos, faça a reverência devida ao seu Criador e que pelo mundo aja com honra e honestidade, sempre usando esta preciosa norma como padrão em suas ações, que se compromete, a tratar cada homem como deveriam tratar com ele Para o ofício, ao invés de entrar em disputas desnecessárias sobre as diferentes opiniões e convicções dos homens, admite na Fraternidade em tudo o que é bom e verdadeiro; provocando meios de reconciliação entre as pessoas, que, sem esta assistência, permaneceriam em perpétua divergência. [nota 1]

As atuais constituições da UGLE (Grande Loja Unida da Inglaterra)

Quando a Grande Loja Unida da Inglaterra foi criada, com a união dos Antigos e os Modernos, foi redigida uma nova versão das Constituições, que é uma síntese das Constituições de Anderson dos Modernos e do Ahiman Rezon dos Antigos.

No tópico sobre Deus e Religião:

Um maçom é obrigado, por dever de ofício (mandato), a obedecer à lei moral e, se ele entende corretamente a arte, ele nunca será um ateu estúpido ou um libertino irreligioso. Ele, de todos os homens, deve entender melhor, que Deus não vê como o homem vê, pois, o homem olha em aparência externa, mas Deus olha para o coração. Um Maçom, portanto, particularmente, nunca será obrigado a agir contra os ditames de sua consciência. Deixe um homem ter religião ou culto que puder, e ele não será excluído da ordem enquanto ele acreditar no glorioso arquiteto do céu e da terra, e praticar os sagrados deveres da moralidade. [nota 2]

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Nota 1 – A tradução abaixo especificada, se trata da primeira versão do Ahiman Rezon (1754).

Analisei diversas versões desta constituição e reparei que a partir da versão de 1760, o tópico referente a Deus e a Religião, por algum motivo está diferente do texto original, e bem parecido com as constituições dos Modernos de 1738.

Recentemente o irmão Kennyo Ismail publicou o livro “Ahiman Rezon – A constituição dos Maçons Antigos de Laurence Dermott”, que foi baseado em uma versão de 1778, como afirmado na página 23 desta obra.

Portanto, como o texto “Ahiman Rezon” aqui traduzido, da primeira versão (1754), está diferente do livro do irmão Kennyo Ismail (baseado em 1778), que inclusive, está na lista de livros recomendados do site “O Prumo de Hiram”.

Nota 2 – Mandato (Tenure):

“Tenure” é comumente traduzido como um mandato ou título. Pode ser interessante ver o seguinte texto, extraído de um trabalho publicado na página da Grande Loja Suíça Alpina, intitulado precisamente de: “As Constituições e o princípio da tolerância”.

“… Primeiro de tudo, há a palavra “mandato” que merece uma explicação. Das palavras deste texto, a diferença de todas as demais, é que mudou o sentido com o tempo, pois está muito ligada a uma instituição específica. É um termo da lei feudal.

No feudalismo, um soberano confiava aos seus vassalos, um bem, uma propriedade, para que eles pudessem prestar os serviços que se esperava deles, especialmente o serviço de defesa, ou o que hoje chamaríamos de serviço militar. Tenha em mente que na sociedade medieval, após a introdução de estribos para montar a cavalo e sua armadura pesada, era necessário o auxílio dos servos para o cavaleiro e seu equipamento. Quando o Senhor dava a vassalo um feudo, ele o colocava em condições de cumprir sua tarefa. “Mandato” era a associação de fidelidade e deveres. No “mandato” de um nobre na Idade Média estava todos os meios à sua disposição para que ele pudesse desempenhar seus deveres.

A projeção deste conceito para a condição de construtor ou pedreiro, é óbvia: mediante sua admissão, o construtor recebia privilégios que lhe permitiam cumprir seu juramento.”

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Bibliografia:

Ahiman Rezon or, a Help to a Brother – versões de 1754, 1764, 1778 (Londres)

Ahiman Rezon or, a Help to a Brother – 1760 (Dublin)

Ahiman Rezon – A constituição dos Maçons Antigos de Laurence Dermott, traduzido e comentado por Kennyo Ismail – 2016

Constitutions of the Antient Fraternity of Free and Accepted Masons under the United Grand Lodge of England – 2016

Constitutions of the Free-Masons. Containing the History, Charges, Regulations, &c. of that most Ancient and Right Worshipful Fraternity – 1723

The Constitutions of the Free-Masons – 1734 (Philadelphia)

The New Book of Constitutions of the Antient and Honourable Fraternity of Free and Accepted Masons, containing their History, Charges, Regulations, &c. collected and digested by order of the Grand Lodge from their old Records, faithful Traditions and Lodges-Books, for the use of the Lodges. – 1738

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