A INFLUÊNCIA DA CAVALARIA NA MAÇONARIA

Existem 4 graus no Rito Escocês Antigo e Aceito que são os designados Graus Capitulares e que marcam a transição entre a maçonaria do ofício e as tradições e espírito da cavalaria medieval.
A Cavalaria foi, concretamente na França, uma das várias instituições existentes na Idade Média que tinha por objectivo fundamental a defesa comum.
Os cavaleiros admitidos nas ordens de cavalaria assumiam um juramento de fraternidade de armas e de se defenderem mutuamente.
É conhecida a célebre frase: um por todos e todos por um!
A religião, a guerra, a lealdade e o culto da exaltação do amor, bem com a protecção e defesa dos mais desfavorecidos constituíam aspectos nucleares da vida de um cavaleiro.
Outros aspectos de importância fundamental num cavaleiro eram a cortesia, como refinamento da lealdade cavaleiresca, e também o culto da mulher.
Exaltavam o sentimento de honra que, nessa altura, atingiu um nível que nunca tinha estado presente entre os heróis da antiguidade.

O regime feudal concorreu para firmar a mística que se desenvolveu em torno da Cavalaria. O cavaleiro era “pintado” como homem forte, corajoso, leal a um senhor feudal, de espírito profundamente religioso, não raras vezes virtuoso, e extremamente romântico, pois que geralmente se confessava ardentemente apaixonado por uma dama, a quem garantia eterno amor e lealdade, embora esse amor geralmente fosse platônico.
O cavaleiro constituiu a base da hierarquia feudal, a sua reserva moral e ética, o herói a quem o necessitado, o fraco, e o oprimido podiam pedir ajuda.
Assim, a Cavalaria logo assumiu uma característica de organização iniciática, com seus rituais próprios e seu código de valores. Uma longa preparação tinha que ser cumprida por um jovem antes de ser armado cavaleiro. Começava como pajem, servindo o seu cavaleiro nas tarefas mais humildes, depois escudeiro, auxiliando o Senhor em tarefas militares, e por fim, depois de mostrar seu valor e sua destreza nas artes militares, e comprovados seu zelo e sua fé, eram-lhe concedido o título de cavaleiro, depois de um ritual de iniciação que não ficava muito a dever às Ordens monásticas da época.
O ritual de armação tinha sua ritualística própria. O jovem cavaleiro passava a noite em oração, velando as suas armas. Depois, acompanhado do padrinho, que geralmente era o senhor feudal a quem servira como escudeiro, ele era levado perante um padre e na presença deles jurava fidelidade ao seu senhor, à “Santa Madre Igreja”, e prometia ser fiel servidor da fé cristã, e perseverar na prática da virtude, servindo aos mais fracos e protegendo os desvalidos.
A partir do século VIII os exércitos dos reinos europeus começaram a usar mais a Cavalaria como arma de guerra. Os exércitos eram formados por cavaleiros armados pelos respectivos senhores feudais, que a este juravam lealdade, e este ao rei. Ser cavaleiro não era um privilégio que podia ser conferido a qualquer pessoa, pois o custo dos equipamentos e montarias era muito alto, só suportável por pessoas de alguma posse. Daí generalizou-se pela Europa o costume de reis e grandes senhores feudais distribuírem partes de suas terras aos seus vassalos com a condição de que estes viessem em seu socorro em caso de guerra.
A cavalaria influenciou profundamente os costumes e as características sociais num dado período histórico.
Os rituais surgidos no secº XVIII foram inspirados pela nostalgia dos valores caídos em desuso, nomeadamente a nível da cavalaria.
Os rituais dos graus capitulares reactivam o imaginário cavaleiresco na Maçonaria.
Assim, a espada, atributo do cavaleiro, é um instrumento predominante dos 4 graus capitulares.
Os graus capitulares foram enriquecidos pela influência de diversas tradições, fundamentalmente bíblicas, cavaleirescas, herméticas, rosacrucianas e até gnósticas, bem como dotados de um fundo legendário com múltiplas vias de reflexão em aberto.
São forçosamente considerados graus filosóficos tanto pela sua origem como pelo seu simbolismo, o que os torna dotados de um carácter universalista.

As numerosas referências aos textos bíblicos contidas nos graus capitulares acabam por não colocar qualquer exigência de uma reflexão inserida na teologia, mas são antes uma via de suporte de procura da Verdade, ou seja uma pesquisa no sentido do conteúdo iniciático da mensagem bíblica que pode ser descoberto aos vários níveis da sua leitura, oferecendo uma ampla pluralidade de interpretações espirituais possíveis.
Na sua essência, são graus muito marcados por aspectos herméticos.
Sendo conhecido que durante a Idade Média proliferaram os títulos de cavaleiro por todo o lado e com as mais variadas aplicações sociais e com as mais variadas implicações económico-financeiras, o que determinou essa influência?
Não nos podemos esquecer que se desenvolveu uma importante e vasta acção organizada de sectores da nobreza em procurar estabelecer uma estrutura maçónica elitista, o que desencadeou reacções muito contundentes em 1737 dos sectores da burguesia em ascenção e que dispunham de uma capacidade económica muito forte perante estratos da nobreza já em clara decadência.
John Coustos, joalheiro, que mais tarde esteve preso em Portugal pela Inquisição devido precisamente às suas actividades maçónicas, foi um dos que encabeçou esse movimento.
Os sectores da nobreza pretendiam restringir a participação nas sessões maçónicas a quem não dispusesse do direito a usar a espada e nesse sentido o ritual que Derwentwater procurou introduzir obrigava ao uso da espada.
Coustos contestou energicamente esta pretensão argumentando que a Ordem Maçónica é uma ordem da sociedade e não uma ordem da cavalaria.
Por outro lado, as lojas parisienses dispunham nessa altura da tradição de possuírem veneráveis vitalícios que não eram resultado de eleições, mas que tendo sido os fundadores de uma loja aí permaneciam enquanto fosse essa a sua vontade.
Ora, o escocismo vem distinguir-se dessa visão elitista e cavaleiresca ao defender as eleições para os cargos maçónicos e ao procurar fazer da Maçonaria uma ordem da sociedade.
No entanto, foram mantidos esses graus de clara e marcada índole cavaleiresca.
Ora, esta questão leva-nos a ter presente que várias referências documentais, nomeadamente a Colecção Sharp, apontam para o facto de os autores dos rituais dos graus do Rito Escocês Antigo e Aceito que, apesar de várias e conhecidas alterações do seu conteúdo ao longo dos últimos dois séculos, ainda são hoje praticados na sua essência, terem sido elaborados por um grupo que está registado nessa documentação histórica como os “Jardineiros da Rosa”, não se conhecendo qualquer referência pessoal directa a nenhum dos seus membros.
Múltiplos estudos reconhecem no conteúdo dos rituais influências judias, do protestantismo francês, concretamente o calvinista, das lojas militares e dos burgueses como classe social.

Por exemplo, o conceito de “Eleito” é de inspiração calvinista e o carácter salomónico do Antigo Mestrado revela a influencia judia que é ainda sublinhada pela abundância de hebraísmos.
Não existem hoje dúvidas, com o mínimo de fundamento, quanto ao facto dos graus escoceses e dos seus rituais terem origem em França.
Trata-se de uma evidência histórica marcante.
Neste contexto, assume particular importância a Loja “ Os Eleitos Perfeitos”, em Bordéus, também designada “ Loja Escocesa de S. João de Jerusalém”.
Os regulamentos adoptados a 8 de Julho de 1745 possuem as assinaturas de Étienne Morin, Lamolère de Feuillas, Raoul, Lavie e Riboutet.
De acordo com uma carta de Dupin Deslezes, que foi venerável em 1750, dirigida a Pierre-François Roussillon a 24 de Maio de 1759, o fundador da loja foi Étienne Morin.
Nos membros identificados desta loja figura um maçon de nome Peres, negociante, referido como português.
Importa ter em conta que em 1750 a população judia em Bordéus era predominantemente portuguesa e dispunha de 6 sinagogas e várias escolas básicas e superiores.
“ Os Eleitos Perfeitos” já possuíam nessa altura um verdadeiro rito constituído por 10 graus e iniciaram a criação de várias lojas, em diferentes locais, designadas “ Perfeitas Lojas da Escócia”, nomeadamente em Paris, Toulouse, Marselha e na ilha de S. Domingos.
Existem múltiplos factos que demonstram que eles conheciam antes de 1750 os graus e respectivos rituais do Cavaleiro do Oriente, do Cavaleiro do Sol e do Cavaleiro Rosa-Cruz.
Em 1758 foi fundado em Paris um Capítulo designado dos Imperadores do Oriente e do Ocidente e os seus membros intitulavam-se “ Soberanos Príncipes Maçons, Substitutos Gerais da Arte Real, Grandes Vigilantes e Oficiais da Grande e Soberana Loja de S. João de Jerusalém” atribuindo aos Imperadores a titularidade retomada da Patente de Morin pelos membros do Grande Conselho dos Graus Eminentes de Chaillon de Jonville.
No período que se segue a 1763, o facto dos Imperadores serem recrutados na aristocracia determina, segundo o autor Pierre Chevalier, a criação do Conselho Soberano dos Cavaleiros do Oriente formado sobretudo por burgueses.
O Conselho dos Imperadores funde-se, cerca de 1772, com o Grande Oriente.
Em 25 de Setembro de 1763, foi eleito para dirigir o Conselho Soberano dos Cavaleiros do Oriente, Jean Pierre Moet, tornando-se o primeiro “Soberano”.
O trabalho e a personalidade de Moet fazem dele um dos candidatos perfeitos a
“Jardineiro da Rosa”, tendo publicado diversas obras entre 1742 e 1769 de grande
inspiração filosófica e moral, colocando aí os seus profundos conhecimentos esotéricos.

Durante cerca de 20 anos, Moet foi o mais fiel tenente de Chaillon de Jonville, sendo
nessa altura que foi efectuada a “Síntese Escocesa” conhecida hoje pelo nome de Antigo
Mestrado Parisiense.
Por evidentes razões históricas é possível verificar que o sucessor legítimo do Grande
Conselho dos Graus Eminentes de Chaillon de Jonville é o Conselho Soberano dos
Cavaleiros do Oriente de 1763.
É, pois, entre os membros deste conselho que se situam os nossos Jardineiros da Rosa e
entre os quais há que sublinhar como os mais prováveis Le Lorrain, Moet, Pingré e
Puisieux.
É indispensável ter bem presente que o Rito da Perfeição constituído por 25 graus e que foi aquilo que se pode chamar uma construção de dois homens que consagraram as suas vidas inteiramente à Maçonaria e que foram quase ignorados ao longo dos séculos XIX e XX: Etienne Morin e Henry Andrew Francken.
Em 1760, Morin, que tinha ido para as Antilhas devido à sua actividade de comerciante, voltou a França devido aos seus negócios, mas também para obter da Loja de S. João de Jerusalém e do Grande Conselho dos Graus Eminentes, dirigido por Chaillon de Jonville, a legitimidade maçónica que Bordéus lhe tinha recusado.
A 27 de Agosto de 1761 estas 2 entidades entregaram a Morin a Patente solicitada.
Antes de ter recebido a sua célebre Patente, Morin estava na posse dos Antigos Mestrados de Bordéus e Paris, assim como de um conjunto de graus exteriores como, por exemplo, o Cavaleiro do Sol e o Cavaleiro do Oriente, como prova a carta que enviou a 24 de Junho de 1757 aos Eleitos Perfeitos de Bordéus.
Há cerca de três anos (2012), foram publicados os cadernos manuscritos de anotações do Conde de Clermont, datados de1768, onde já se encontram estruturados os trinta e três graus do Rito Escocês Antigo e Aceito.
CONCLUSÕES:
O percurso maçónico deve conduzir-nos a um estado de maior engrandecimento humano, onde cada grau constitui uma etapa.
Se esta afirmação é de natural e de fácil compreensão, então a reflexão a desenvolver deve apontar à sempre inadiável percepção sobre os deveres sociais, cívicos e humanistas de cada maçon perante a sociedade e os seus semelhantes.
Se o conteúdo dos referidos graus capitulares possuem diversas referências bíblicas há que ter em conta que é hoje uma evidência amplamente reconhecida que os textos chegados até nós por via da sua integração na Bíblia resultam de documentação muito mais antiga e de civilizações desaparecidas há milhares de anos, como os sumérios, babilónios e até de povos mais orientais que, no fundo, sintetizavam ensinamentos provados pela vida, pelos seus ciclos, e por sucessivas sociedades nos seus múltiplos períodos de ascensão e queda.
No fundo, trataram-se de mensagens para as gerações vindouras aprenderem com a experiência até aí vivida.
Assim, se hoje existem esses graus dotados desses ensinamentos profundos e com níveis muito acrescidos de compromissos éticos, humanistas e, sem ter medo das palavras, de compromissos políticos virados para o contínuo avanço civilizacional e para o aperfeiçoamento dos cidadãos, com que meios e com que exigências formativas como maçons temos de nos posicionar?
Num momento, em que a civilização humana tem conhecido impensáveis retrocessos sociais e políticos, onde a barbárie impera e onde os valores mais nobres da vida são combatidos pelos interesses instalados como se tratassem de conceitos terroristas, qual o papel que devemos desempenhar como maçons, o que implica dizer como homens livres, de bons costumes e libertos de medos e de preconceitos, quais cavaleiros intrépidos sempre dispostos a combater as tiranias e as amarras subjugadoras da emancipação social e espiritual dos seres humanos que coabitam no mesmo espaço deste planeta?
Derrubar muros, combater tiranias e construir um futuro melhor e mais humanizado, não se compadece com cavaleiros imbuídos de uma visão platónica da vida e dos valores.
Construir esse futuro insubmisso, como acontece nalguns dos graus capitulares, implica, na minha opinião, ter pressa de viver.
O nosso poeta José Gomes Ferreira disse um dia que aquilo de que mais tinha saudade era do futuro.
O nosso poeta António Gedeão fez um poema intitulado “fala do homem nascido” onde disse:
Venho da terra assombrada, do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada nem fazer mal a ninguém. Só quero o que me é devido por me trazerem aqui, que eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci. Trago boca para comer e olhos para desejar. Com licença, quero passar, tenho pressa de viver. Com licença! Com licença! Que a vida é água a correr. Venho do fundo do tempo; não tenho tempo a perder. …

O cantor, compositor e advogado brasileiro Geraldo Vandré, em plena ditadura no seu país, em 1968, cantou num espectáculo público uma canção que as forças policiais e da censura o tinham proibido de fazer e cujo título dizia
“ para não dizerem que não falei das flores”.
O refrão diz que
“vem, vamos embora/ que esperar não é saber/ quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”.
Ao longo da minha vida sempre tive muito mais dúvidas do que certezas, nunca convivi bem com receitas cozinhadas à margem da vida e do pulsar dos seres humanos, nem com conceitos de determinismo histórico de ficar à espera que o “fruto” caia da árvore de maduro.
Também eu tenho pressa de viver e de poder contribuir para um futuro que me causa saudades. E ao querer fazê-lo inserido na nobre e insubstituível actividade maçónica é natural que tenha apresentado este texto onde suscito questões concretas e transmito sobressaltos.
Não tenho respostas elaboradas, mas estou empenhado em participar na peregrinação do pensamento e da reflexão, de modo a dar o meu contributo possível de cidadão numa fase histórica tão complexa e preocupante como aquela que atravessa hoje o mundo que vivemos.
Lisboa, 2/11/2015
Mário Jorge Neves

 

Fonte: JB News

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